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Um histórico da Arteterapia.


A arteterapia usa a atividade artística como instrumento de intervenção profissional para a promoção da saúde e qualidade de vida, abrangendo hoje as mais diversas linguagens: plástica, literária, sonora, dramática e corporal, a partir de técnicas expressivas como desenho, pintura, modelagem, música, poesia, dramatização e dança (REIS, 2014).


Conforme a Associação Brasileira de Arteterapia, a arteterapia é uma especialização destinada a profissionais com graduação na área da saúde, como psicologia, medicina, enfermagem e fisioterapia, embora se reconheça sua utilização por pessoas formadas nas áreas das artes e da educação, desde que sem o enfoque clínico (REIS, 2014).


Um histórico da Arteterapia


Em 1876, o psiquiatra Simon Nordau (Peste, 1849 – Paris, 1923) publicou pesquisas feitas sobre manifestações artísticas em seus doentes mentais, fazendo uma classificação sobre diversas patologias e essas produções artísticas (ANDRADE, 1995 apud LIMA VENÂNCIO, 2009).


O artista britânico Adrian Hill (1895 – 1977) esteve internado num hospital durante a Segunda Guerra Mundial convalescendo-se de tuberculose, e durante esse tempo pintava e desenhava como forma de encontrar algum consolo ao encontrar-se naquele estado. Com o tempo, Hill percebe o quanto a prática artística pode auxiliar na recuperação de doentes, ao encontrarem na arte um meio de expressão do desespero trazido pela doença e pela situação da época de guerra (MARTINS, 2012).


Neste hospital, em Midhurst, Adrian cria um atelier e recebe soldados feridos que regressavam da guerra. Estes têm a oportunidade de expressarem os horrores vividos nesse período, e Adrian passa a acreditar que eles podem se libertar dos traumas da vivência da guerra. As pinturas e os desenhos são também veículos para falarem sobre as dores e os medos da doença e da morte. Através do exercício de expressão artística e da elaboração das emoções, os pacientes desenvolvem uma atitude de mais esperança perante a vida, e de menos ansiedade e angústia (MARTINS, 2012).


Além de ser conhecido como o homem que cunhou o termo arteterapia, Adrian também é conhecido por ter apresentado um programa chamado Sketch Club na BBC.


As teorias de Freud e Jung trouxeram as bases para o desenvolvimento da arteterapia como campo específico de atuação (REIS, 2014).


Conforme citado por Reis (2014), Carvalho e Andrade (1995) relembram que Freud, ao analisar algumas obras de arte (por exemplo, o Moisés, de Michelangelo), observou que elas expressavam manifestações inconscientes do artista, considerando-as uma forma de comunicação simbólica, com função catártica. A ideia freudiana de que o inconsciente se expressa por imagens, tais como as originadas no sonho, levou à compreensão das imagens criadas na arte como uma via de acesso privilegiada ao inconsciente, pois elas escapariam mais facilmente da censura do que as palavras.

Várias vezes, encontrar-se-ia maior facilidade em desenhar os sonhos do que escrevê-los ou narrá-los.


Conforme Ciornai (1995), a linguagem artística reflete (em muitos casos melhor do que a verbal) nossas experiências interiores, proporcionando uma ampliação da consciência acerca dos fenômenos subjetivos.


A psicologia analítica foi quem propriamente começou a usar a linguagem artística associada à psicoterapia. Diferentemente de Freud, que considerava a arte uma forma de sublimação das pulsões, Jung considerava a criatividade artística uma função psíquica natural e estruturante, cuja capacidade de cura estava em dar forma, em transformar conteúdos inconscientes em imagens simbólicas (SILVEIRA, 2001 apud REIS, 2014).


Arte de paciente de Jung

Jung sugeria aos seus pacientes que desenhassem ou pintassem livremente seus sonhos, sentimentos, situações conflitivas, etc., analisando as imagens criadas por eles como uma simbolização do inconsciente individual e coletivo (ANDRADE, 2000 apud REIS, 2014). Jung utilizava o desenho livre para facilitar a interação verbal com o paciente e porque acreditava “na possibilidade de o homem organizar seu caos interior utilizando-se da arte” (ANDRADE, 2000, p.52 apud REIS, 2014). “A psicologia analítica não pretende opinar sobre o valor estético das obras de arte nem explicar o fenômeno arte. Estas áreas pertencem aos críticos de arte” (SILVEIRA, 1981).


Em 1941, a educadora norte-americana Margareth Naumburg (1890-1983) foi a primeira a sistematizar a arteterapia (ANDRADE, 1995, 2000 apud REIS, 2014). Seu trabalho é denominado arteterapia de orientação dinâmica, e foi desenvolvido com base na teoria psicanalítica (NAUMBURG, 1966 apud REIS, 2014). Nessa perspectiva, as técnicas de arteterapia visam a facilitar a projeção de conflitos inconscientes em representações pictóricas, sendo esse material submetido à interpretação seguindo o modelo teórico proposto por Freud (REIS, 2014),


A abordagem gestáltica em arteterapia foi desenvolvida por Janie Rhyne, que sistematizou-a no livro The Gestalt Art Experience, escrito em 1973 e publicado no Brasil com o título Arte e Gestalt: Padrões que Convergem (RHYNE, 2000 apud REIS, 2014). Nessa obra, ela articula conceitos da psicologia da gestalt a diversas técnicas que utilizam materiais artísticos, tanto no contexto psicoterapêutico quanto educacional, para trabalhar com indivíduos ou grupos. Sendo a psicologia da gestalt originalmente uma teoria da percepção, esse é um conceito central na arteterapia gestáltica, na qual a vivência artística tem como finalidade ampliar a percepção do sujeito sobre si mesmo (REIS, 2014).


Há também terapia expressiva baseada na abordagem centrada na pessoa. Abaixo, uma imagem da Natalie Rogers (Rochester, 1928 – São Francisco, 2015) com uma pessoa modelando argila.



O trabalho arteterapêutico no Brasil iniciou seu desenvolvimento em hospitais psiquiátricos e em instituições na área da saúde. Em 1925, o Dr. Osório César começou a utilizar a arteterapia no Hospital Psiquiátrico de Juqueri seguindo a abordagem psicanalítica e, posteriormente, a psiquiatra Nise da Silveira, em 1946, baseando-se na abordagem junguiana, começou a desenvolver um trabalho arteterapêutico no Rio de Janeiro no Centro Psiquiátrico Pedro II, criando, mais tarde, o Museu do Inconsciente (ARCURI, 2004, p. 19).


O modo como Nise trabalhava por meio da expressão criativa de seus pacientes com esquizofrenia apresenta convergências com uma perspectiva fenomenológica. Seu foco era o sujeito e não a doença, pensando, então, terapêuticas a partir da relação de seu paciente com o mundo. A expressão criativa nesta perspectiva mostra seu potencial transformador (HOLANDA e SCHLEDER , 2015).


Nise, ao final de sua vida, nomeia esse trabalho como "emoção de lidar", referência à experiência de um dos seus pacientes ao pintar (BEZERRA, 1995; MELO, 2001b apud HOLANDA e SCHLEDER, 2015). Ela não usou o termo arteterapia para nomear seu trabalho. Ela considerava que a palavra arte trazia uma conotação de valor, de qualidade estética, que não tinha em vista ao utilizar a atividade expressiva com seus pacientes (SILVEIRA, 2001 apud REIS, 2014). Apesar disso, críticos de arte como Mário Pedrosa e outros que passaram a frequentar o Museu de Imagens do Inconsciente reconheceram ali “verdadeiras obras de arte” (REIS, 2014).


Osório e Nise contribuíram para o desenvolvimento de outra abordagem frente à loucura, contrapondo aos métodos agressivos de contenção vigentes na época (eletrochoque, isolamento e lobotomia) à possibilidade de expressão da loucura e de sua eventual cura através da arte (REIS, 2014).


Obra de Emygdio de Barros

Na construção do campo da arteterapia, destaca-se Maria Margarida M. J. de Carvalho, que, em 1980, implantou o primeiro Curso de Arteterapia no Instituto Sedes Sapientae, em São Paulo. Em 1990, a abordagem gestáltica entra no cenário da arteterapia brasileira, ao ser implantada no Sedes Sapientae uma especialização em arteterapia gestáltica por Selma Ciornai (REIS, 2014).


Ciornai (1995, p. 59) concebe “saúde como ligada à criatividade, a processos criativos na vida, à visão de homem como um ser-em-relação, ser-no-mundo, cuja natureza peculiar é ser criador. Um ser que interage com quem convive e com o meio que vive, lançando mão de seus recursos para poder reconhecer e lidar criativamente com os limites que a vida lhe impõe”.




Indicações de site, filme e vídeos


Filme Nise - O Coração da Loucura











Site e vídeo sobre Sandplay

Há uma biografia de Dora Maria Kalff nesta página: http://www.psicologiasandplay.com.br/dora-kalff/










Vídeo sobre o Psicodrama











Referências bibliográficas



ARCURI, Irene (org.). Arteterapia de corpo & alma. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.


MARTINS, Daniela. Arte-terapia e as potencialidades simbólicas e criativas dos mediadores artísticos. Orientador: doutor João Manuel Gouveia de Almeida Peneda. 145 p. Dissertação (mestrado) - Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, 2012. disponível em: <https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/10008/2/ULFBA_TES665.pdf>. Acesso em: 30 set. 2019.


CIORNAI, Selma. Arte-terapia: o resgate da criatividade na vida. In M. M. M. J Carvalho (Org.), A Arte Cura? Recursos artísticos em psicoterapia. Campinas, SP: Editorial Psy II, 1995.


HOLANDA, Adriano Furtado; SCHLEDER, Karoline Stoltz. Nise da Silveira e o enfoque fenomenológico. Rev. abordagem gestalt. Goiânia, v. 21, no 1, 2015. Disponível em:<http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672015000100006>. Acesso em: 1 out. 2019.


LIMA VENÂNCIO, Cecília Penha. Fonoaudiologia e arteterapia: resgate de interlocutores idosos com alterações de linguagem. Orientador: Doutor Luiz Augusto de Paulo Souza. Dissertação (Mestrado) - PUC-SP, São Paulo, 2009. Disponível em: <http://livros01.livrosgratis.com.br/cp086561.pdf>. Acesso em: 1 out. 2019.


REIS, Alice Casanova. Arteterapia: a arte como instrumento de trabalho do psicólogo. psicologia: ciência e profissão, 34 (1), 142-157. Santa Catarina, 2014. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932014000100011>. Acesso em: 1 out. 2019.


SILVEIRA, Nise. Jung: vida e obra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.


Imagens iniciais por Pixabay

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