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Nove inteligĂȘncias da teoria das inteligĂȘncias mĂșltiplas.

  • Foto do escritor: Douglas de Macedo
    Douglas de Macedo
  • 1 de ago. de 2021
  • 7 min de leitura

Atualizado: 7 de set. de 2021


Gardner (1995, p. 21) discorre que, numa visĂŁo tradicional, a inteligĂȘncia Ă© definida operacionalmente como a capacidade de responder a itens em testes de inteligĂȘncia. A inferĂȘncia, a partir dos resultados de testes, de alguma capacidade subjacente Ă© apoiada por tĂ©cnicas estatĂ­sticas que comparam respostas de sujeitos em diferentes idades. A aparente correlação desses resultados de testes atravĂ©s das idades e atravĂ©s de diferentes testes corrobora a noção de que a faculdade geral da inteligĂȘncia, g, nĂŁo muda muito com a idade ou com treinamento ou experiĂȘncia. Ela Ă© um atributo ou faculdade inata do indivĂ­duo.


A teoria das inteligĂȘncias mĂșltiplas (IM), por outro lado, pluraliza esse conceito tradicional de inteligĂȘncia. Uma inteligĂȘncia implica na capacidade de resolver problemas ou elaborar produtos que sĂŁo importantes num determinado ambiente ou comunidade cultural (GARDNER, 1995, p. 21).


A capacidade de resolver problemas permite à pessoa abordar uma situação em que um objetivo deve ser atingido e localizar a rota adequada para esse objetivo (GARDNER, 1995, p. 21).


De acordo com Gardner (1995, p. 21), a teoria das IM Ă© elaborada Ă  luz das origens biolĂłgicas de cada capacidade de resolver problemas. Somente sĂŁo tratadas aquelas capacidades que sĂŁo universais na espĂ©cie humana. Mesmo assim, a tendĂȘncia biolĂłgica a participar numa determinada forma de solução de problemas tambĂ©m deve ser vinculada ao estĂ­mulo cultural nesse domĂ­nio.


Por exemplo, a linguagem, uma capacidade universal, pode manifestar-se particularmente como escrita em uma cultura, como oratĂłria em outra, e como a linguagem secreta dos anagramas numa terceira (GARDNER, 1995, p. 21).


Gardner (1995, p. 22) discorre que as inteligĂȘncias dos sujeitos considerados normais sempre funcionam combinadas, e qualquer papel adulto sofisticado envolverĂĄ uma fusĂŁo de vĂĄrias delas.



Nove inteligĂȘncias



InteligĂȘncia musical


De acordo com Gardner (2009, p. 44), a facilidade na percepção e na produção da mĂșsica Ă©, de muitas maneiras, anĂĄloga Ă  inteligĂȘncia linguĂ­stica. Entre os subtipos identificĂĄveis estĂŁo: a apreciação da melodia e da harmonia; a sensibilidade ao ritmo; a capacidade de reconhecer variaçÔes no timbre e na tonalidade; e, falando de modo mais holĂ­stico, a capacidade de captar a estrutura do funcionamento da mĂșsica (variando da livre interação melĂłdica caracterĂ­stica do jazz Ă  arquitetura altamente especĂ­fica da sonata clĂĄssica).


A inteligĂȘncia musical tem um lugar de destaque em quase qualquer tipo de apresentação pĂșblica, variando de comerciais de televisĂŁo a filmes, conferĂȘncias, eventos atlĂ©ticos e rituais religiosos (GARDNER, 2009, p. 44).



InteligĂȘncia espacial


Conforme Gardner (1994, p. 147), uma inteligĂȘncia espacial intensamente aguçada prova ser um bem de valor inestimĂĄvel em nossa sociedade. Em algumas ocupaçÔes, esta inteligĂȘncia Ă© essencial, por exemplo, para um escultor ou um matemĂĄtico especializado em topologia.


Sem inteligĂȘncia espacial desenvolvida, o progresso nestes domĂ­nios Ă© difĂ­cil de imaginar e hĂĄ muitas outras ocupaçÔes nas quais a inteligĂȘncia espacial sozinha poderia nĂŁo ser suficiente para produzir competĂȘncia, mas onde ela proporciona muito do Ă­mpeto intelectual necessĂĄrio (GARDNER, 1994, p. 147).


As artes visuais utilizam esta inteligĂȘncia no uso do espaço. Outros tipos de solução de problemas espaciais sĂŁo convocados quando visualizamos um objeto de um Ăąngulo diferente e no jogo de xadrez, por exemplo (GARDNER, 1995, p. 26).


As evidĂȘncias da pesquisa do cĂ©rebro sĂŁo claras e persuasivas. Um dano nas regiĂ”es posteriores direitas provoca prejuĂ­zo na capacidade de encontrar o prĂłprio caminho em torno de um lugar, de reconhecer rostos ou cenas, ou de observar detalhes pequenos (GARDNER, 1995, p. 26).



InteligĂȘncia corporal-cinestĂ©sica


A inteligĂȘncia corporal-cinestĂ©sica Ă©, de certa maneira, anĂĄloga Ă  inteligĂȘncia espacial. Trata-se da capacidade de resolver problemas ou criar produtos usando o corpo todo ou partes do corpo. NĂŁo hĂĄ dĂșvida de que essa forma de inteligĂȘncia foi crucial na prĂ©-histĂłria humana, sendo Ă s vezes descrita como uma inteligĂȘncia “instrumental” ou “tecnolĂłgica” (GARDNER, 2009, p. 46).


Para sobreviverem como caçadores, pescadores ou fazendeiros, para fazerem roupas, construírem abrigos, prepararem comida e se defenderem dos inimigos, os nossos predecessores precisavam usar habilmente o corpo (GARDNER, 2009, p. 46).


Gardner (1995, p. 24) discorre que a capacidade de usar o prĂłprio corpo para expressar uma emoção (como na dança), jogar um jogo (como num esporte) ou criar um novo produto (como no planejamento de uma invenção) Ă© uma evidĂȘncia dos aspectos cognitivos do uso do corpo.



InteligĂȘncia lĂłgico-matemĂĄtica


Em 1983, Barbara McClintock ganhou o PrĂȘmio Nobel de medicina ou fisiologia por seu trabalho em microbiologia. Seus poderes intelectuais de dedução e observação ilustram uma forma de inteligĂȘncia lĂłgico-matemĂĄtica frequentemente rotulada como "pensamento cientĂ­fico" (GARDNER, 1995, p. 24).


Gardner (1994, p. 100) descreve que, em contraste com capacidades linguĂ­sticas e musicais, a competĂȘncia que denomina "inteligĂȘncia lĂłgico-matemĂĄtica" nĂŁo se origina na esfera auditivo-oral. Ao contrĂĄrio, esta forma de pensamento pode ser traçada de um confronto com o mundo dos objetos. Pois Ă© confrontando objetos, ordenando-os, reordenando-os e avaliando sua quantidade que a criança pequena adquire seu conhecimento inicial e mais fundamental sobre o domĂ­nio lĂłgico-matemĂĄtico.



InteligĂȘncia linguĂ­stica


Gardner (2009, p. 42) enuncia que, amplamente, a inteligĂȘncia linguĂ­stica envolve facilidade no uso da linguagem falada e escrita. Como acontece com todas as inteligĂȘncias, hĂĄ diversos “subtipos”, ou variedades, de inteligĂȘncia linguĂ­stica: a inteligĂȘncia do indivĂ­duo que Ă© bom em aprender lĂ­nguas estrangeiras, por exemplo, ou a inteligĂȘncia do hĂĄbil escritor que consegue transmitir idĂ©ias complexas em uma prosa bem-escrita.


No mundo dos negĂłcios, duas facetas da inteligĂȘncia linguĂ­stica sĂŁo cruciais. Uma Ă© encontrada no argumentador que consegue obter informaçÔes Ășteis pelo hĂĄbil questionamento e discussĂŁo com as pessoas; a outra Ă© observada no retĂłrico que consegue convencer os outros a seguir um curso de ação por meio de histĂłrias, palestras ou exortaçÔes (GARDNER, 2009, p. 42).


Quando um amálgama de capacidades linguísticas se combina no mesmo indivíduo, ele provavelmente terá sucesso em diversos caminhos empresariais, talvez “sem sequer se esforçar” (GARDNER, 2009, p. 42).



InteligĂȘncia intrapessoal


A pessoa com boa inteligĂȘncia intrapessoal possui um modelo viĂĄvel e efetivo de si mesma. Uma vez que esta inteligĂȘncia Ă© a mais privada, ela requer a evidĂȘncia a partir da linguagem, da mĂșsica ou de alguma outra forma mais expressiva de inteligĂȘncia para que o observador a perceba funcionando (Gardner, 1995, p. 28).


De acordo com Gardner (2009, p. 49), a pessoa intrapessoalmente inteligente possui um bom modelo funcional de si mesma, é capaz de identificar sentimentos, objetivos, medos, forças e fraquezas pessoais e pode, nas circunstùncias mais felizes, usar esse modelo para tomar decisÔes sensatas em sua vida.


Quase todos os negĂłcios envolvem trabalhar com outras pessoas, e aqueles indivĂ­duos que possuem um bom conhecimento dos outros – em termos genĂ©ricos e especĂ­ficos – tĂȘm uma vantagem singular. Quer a pessoa trabalhe com textos, com marketing ou relaçÔes pĂșblicas, seja treinador ou membro de uma equipe, a sensibilidade aos outros surge como um recurso crucial (GARDNER, 2009, p. 49).



InteligĂȘncia interpessoal


Segundo Gardner (1995, p. 27), a inteligĂȘncia interpessoal estĂĄ baseada numa capacidade nuclear de perceber distinçÔes entre os outros; em especial, contrastes em seus estados de Ăąnimo, temperamentos, motivaçÔes e intençÔes.


Em formas mais avançadas, esta inteligĂȘncia permite que alguĂ©m experiente perceba as intençÔes e desejos de outras pessoas, mesmo que elas os escondam. Essa capacidade aparece numa forma altamente sofisticada em lĂ­deres, professores, terapeutas e pais (Gardner, 1995, p. 27).


Todos os indícios na pesquisa do cérebro sugerem que os lobos frontais desempenham um papel importante no conhecimento interpessoal. Um dano nessa årea pode provocar profundas mudanças de personalidade, ao mesmo tempo em que não altera outras formas de resolução de problemas (Gardner, 1995, p. 27).


A doença de Alzheimer, uma forma de demĂȘncia prĂ©-senil, parece atacar as zonas cerebrais posteriores, deixando as computaçÔes espaciais, lĂłgicas e linguĂ­sticas severamente prejudicadas. No entanto, os pacientes com Alzheimer frequentemente continuam com uma aparĂȘncia bem-cuidada, socialmente adequados e se desculpam constantemente por seus erros (Gardner, 1995, p. 27).


Em contraste, a doença de Pick, outra variedade de demĂȘncia prĂ©-senil com orientação mais frontal, provoca uma rĂĄpida perda das boas-maneiras sociais (Gardner, 1995, p. 27).



InteligĂȘncia naturalista


Conforme Gardner (2009, p. 47), a inteligĂȘncia naturalista envolve as capacidades de fazer discriminaçÔes consequenciais no mundo natural: entre uma planta e outra, entre um animal e outro, entre variedades de nuvens, formaçÔes rochosas, configuraçÔes de mares, e assim por diante.


Nossos ancestrais não teriam sobrevivido se não pudessem diferenciar uma planta venenosa de outra nutritiva, um animal bom para comer de outro do qual seria melhor fugir imediatamente, um terreno, ågua ou formaçÔes montanhosas convidativos de outros perigosos (2009, p. 47).


Atualmente, ainda existem regiĂ”es do globo onde a sobrevivĂȘncia depende da constante ativação da inteligĂȘncia naturalista. E mesmo em nosso mundo pĂłs-industrial, as pessoas que se dedicam Ă  preparação de alimentos, Ă  construção de barragens, Ă  proteção do nosso ambiente ou Ă  mineração de metais preciosos precisam utilizar suas capacidades naturalistas (2009, p. 47).


O que pode ser menos evidente, mas ainda mais consequencial, Ă© a extensĂŁo em que a nossa sociedade consumista tambĂ©m depende da inteligĂȘncia naturalista. A capacidade de distinguir um tĂȘnis ou suĂ©ter de outro e assim por diante, baseia-se em capacidades que detectam padrĂ”es, que em eras anteriores eram usados para distinguir variedades de lagartos, arbustos ou rochas (2009, p. 47).


Mesmo que alguĂ©m esteja privado de um ou mais dos ĂłrgĂŁos sensoriais, como o famoso naturalista cego Geermat Vermij, ainda pode fazer distinçÔes consequentes. Nesse sentido, a inteligĂȘncia naturalista (como as outras inteligĂȘncias) Ă© “suprassensorial” (2009, p. 48).



A inteligĂȘncia existencial


A inteligĂȘncia existencial nĂŁo tem um dogma ou uma crença fixa conectado a ela. Ela se refere aos indivĂ­duos que possuem uma capacidade maior do que a normal de ter visĂ”es, influenciar as pessoas eticamente, refletir sobre questĂ”es religiosas e filosĂłficas, e engajar-se em outras buscas relacionadas com as questĂ”es essenciais da vida (GARDNER et al., 2010, p. 38).


Desse modo, existe algo na teoria das IM com que cada fé religiosa pode se identificar, em termos de um modelo científico bem fundamentado (GARDNER et al., 2010, p. 38).



CrĂ­tica Ă  teoria das inteligĂȘncias mĂșltiplas


John White, no Reino Unido, parece ter dedicado uma parte importante de sua carreira a atacar as IM (GARDNER et al., 2010, p. 23).


Podemos reconhecer os mĂ©ritos de John White, filĂłsofo da educação inglĂȘs, e de outros autores, por propor um meme que se contraponha ao das IM, seja ele um retorno a uma Ășnica inteligĂȘncia, seja outra forma de pensar sobre uma pluralidade de inteligĂȘncias (GARDNER et al., 2010, p. 23).


Um desafio é levantado por John White (1998, 2006 apud GARDNER et al., 2010, p. 207), ele afirma que a teoria confunde valores de base cultural relacionados com atividades intelectuais específicas com aptidÔes e características biológicas fixas.


Acredita que a teoria produz sua prĂłpria versĂŁo de rigidez na avaliação da inteligĂȘncia e sugere que a singularidade das inteligĂȘncias individuais pode ser questionĂĄvel. Fundamentalmente, segundo White, a teoria deve ser testada empiricamente. Sem critĂ©rios comprovados empiricamente, tal teste nĂŁo Ă© possĂ­vel. Portanto, a Ășnica validade que pode ser alcançada Ă© a priori, que ele sugere ser insuficiente (White, 2006 apud GARDNER et al., 2010, p. 207).




ReferĂȘncias bibliogrĂĄficas



GARDNER, Howard. Estruturas da Mente: A Teoria das InteligĂȘncias MĂșltiplas. Tradução Sandra Costa. Porto Alegre: Artes MĂ©dicas Sul, 1994.


GARDNER, Howard et al. InteligĂȘncias mĂșltiplas ao redor do mundo. Tradução Roberto Cataldo Costa e Ronaldo Cataldo Costa. Porto Alegre: Artmed, 2010.


GARDNER, Howard. InteligĂȘncias mĂșltiplas: a teoria na prĂĄtica. Tradução de Maria Adriana VerĂ­ssimo Veronese. Porto Alegre: Artes MĂ©dicas, 1995.


GARDNER, Howard. Mentes que mudam: a arte e a ciĂȘncia de mudar as nossas idĂ©ias e a dos outros. Tradução Maria Adriana VerĂ­ssimo Veronese. Porto Alegre: Artmed/Bookman, 2009.

 
 

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