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Uma explicação sobre a Terapia Cognitivo-Comportamental.



Foto de Aaron Temkin Beck e sua filha Judith Beck


Sentir-se ansioso pode motivar uma pessoa a preparar-se melhor para uma importante reunião de negócios ou tomar medidas especiais ao viajar para um lugar desconhecido. O fato é que precisamos de um pouco de medo e ansiedade em nossas vidas, mas nem todas as experiências de medo e ansiedade são boas para nós (BECK e CLARK, 2014).


O termo cognitivo se refere ao ato de conhecer ou reconhecer nossas vivências. Assim, a Terapia Cognitivo-Comportamental é um tratamento psicológico organizado e sistemático que ensina as pessoas a mudarem os pensamentos, crenças e atitudes que desempenham um papel importante em estados emocionais negativos como ansiedade ou depressão. A ideia básica na Terapia Cognitivo-Comportamental é que o modo como pensamos influencia o modo como sentimos (BECK e CLARK, 2014).


Conforme J. Beck (2014), a Terapia Cognitivo-Comportamental está baseada no modelo cognitivo, o qual parte da hipótese de que as emoções, os comportamentos e a fisiologia de uma pessoa são influenciados pelas percepções que ela tem dos eventos.



Na infância, as crianças desenvolvem determinadas crenças sobre si mesmas, sobre as outras pessoas e sobre o mundo. E, a partir de circunstâncias muito traumáticas ou de experiências frequentes, essas crenças tornam-se convincentes na vida adulta, mesmo diante de experiências que as desconfirmem (BECK, 1997; GREENBERGER e PADESKY, 1999 apud RANGÉ, 2011, p. 50). As crenças negativas na infância sobre si mesmo podem ocorrer sob a influência de parentes ou outras pessoas.


As crenças mais centrais, ou crenças nucleares, são compreensões duradouras tão baseais e arraigadas que frequentemente não são articuladas nem para própria pessoa. A pessoa considera essas ideias como verdades absolutas (é como as coisas “são”) (BECK, 1987 apud BECK, 2014).


Um exemplo é o de um leitor que não se achou inteligente para entender um livro e que frequentemente tem uma preocupação similar quando tem que se envolver em uma nova tarefa, por exemplo, aprender uma habilidade nova no computador (BECK, 2014).


Esse indivíduo parece ter a crença nuclear: "Eu sou incompetente". Pode ser que essa crença opere somente quando ele está em um estado depressivo, ou pode ser ativada a maior parte do tempo. Quando essa crença nuclear é ativada, esse indivíduo interpreta as situações por meio das lentes da sua crença, mesmo que a interpretação racional seja evidentemente inválida (BECK, 2014).


As crenças nucleares são o nível mais fundamental da crença; elas são globais, rígidas e supergeneralizadas. Os pensamentos automáticos, as palavras ou imagens que passam pela mente da pessoa, são específicos para as situações e podem ser considerados como o nível mais superficial de cognição. A próxima seção descreve a classe de crenças intermediárias que existe entre os dois (BECK, 2014).


Por causa de uma crença rígida e negativa, a pessoa pode ter pensamentos automáticos negativos numa determinada situação. Alguns autores se referem a essas crenças como esquemas. Beck (1964 apud BECK, 2014) diferencia os dois, sugerindo que os esquemas são estruturas cognitivas dentro da mente, cujo conteúdo específico são as crenças nucleares.


Além do mais, ele teoriza que as crenças nucleares negativas se enquadram essencialmente em duas amplas categorias: aquelas associadas ao desamparo e as associadas ao desamor (BECK, 1999 apud BECK, 2014). Uma terceira categoria, associada a desvalor, também já foi descrita (BECK, J., 2005 apud BECK, 2014).


Alguns pacientes apresentam crenças nucleares que se enquadram em uma das categorias; outros têm crenças nucleares em duas ou todas as três categorias. As pessoas desenvolvem essas crenças desde uma idade precoce, quando crianças, com sua predisposição genética para determinados traços de personalidade, interagem com pessoas significativas e se deparam com uma série de situações (BECK, 2014).


Em boa parte das suas vidas, a maioria das pessoas mantém crenças nucleares relativamente positivas e realistas (por exemplo, "Eu estou essencialmente no controle", "Eu consigo fazer a maioria das coisas com competência", "Eu sou um ser humano funcional", "Eu sou digno de estima", "Eu tenho valor") (BECK, 2014).


As crenças nucleares negativas podem vir à superfície apenas durante momentos de sofrimento psicológico. Alguns pacientes com transtorno da personalidade, no entanto, podem ter crenças nucleares negativas ativadas quase continuamente (BECK, 2014).


É importante observar que as pessoas também podem ter crenças nucleares negativas referentes a outras pessoas e ao seu mundo: "As pessoas não são confiáveis", "Outras pessoas vão me magoar", "O mundo é um lugar mau" (BECK, 2014).


A abordagem Cognitivo-Comportamental visa a modificar crenças rígidas e negativas para que a pessoa possa pensar melhor e ter mais qualidade de vida. Uma forma de buscar fazer essa modificação na Terapia Cognitivo-Comportamental é através de ideias que contradizem no bom sentido o que a pessoa está pensando, por exemplo, se a pessoa tem a crença negativa e rígida de que é incompetente, o psicólogo que segue a abordagem Cognitivo-Comportamental, pode lhe dizer: diga-me situações em que você se considera uma pessoa competente. Esse é um dos questionamentos que fazem parte da técnica do diálogo socrático. É importante buscar ter pensamentos mais maleáveis sobre si mesmo, sobre as pessoas e sobre o mundo.


Abaixo, uma imagem de um exemplo fictício de uma hierarquia da cognição de uma jovem.



Essas reações fisiológicas e emocionais ocorreram sob a influência das crenças e consequentemente pensamentos automáticos.

Exemplos de pensamentos mais maleáveis que ela poderia ter buscado ter na situação:


“Já passei por situações difíceis e superei, vou superar esta situação também.”


“Mesmo que eu passe por uma situação embaraçosa, eu posso conseguir superar e isso não vai conseguir me aniquilar.”


“Existem regras na faculdade e lei que protegem as pessoas de bullying (lei 13.185/2015). Eu tenho meus deveres e também meus direitos.”


O terapeuta Cognitivo-Comportamental ajuda a pessoa a perceber suas crenças com o propósito de ajudar a modificá-las. Questionar o que um pensamento significa geralmente revela uma crença intermediária. Questionar o que um pensamento sugere sobre a pessoa geralmente leva à crença central. O nome dessa técnica utilizada para identificar crenças se chama flecha descendente.



Crítica de Aaron Beck à Psicanálise


Eu, particularmente, tenho grande apreço pela Psicanálise e Terapia Cognitivo-Comportamental. Trarei o que Judith Beck (2014) fala sobre Aaron Beck e a psicanálise.


Conforme Beck (2014), Aaron Beck era psicanalista com formação completa e atuante. Fundamentalmente um cientista, ele acreditava que, para que a psicanálise fosse aceita pela comunidade médica, suas teorias precisariam ter demonstração de validação empírica.


No final da década de 1960 e início dos anos de 1970, dedicou-se a uma série de experimentos que, esperava ele, comprovassem perfeitamente essa validação. Ao invés disso, seus experimentos demonstraram o contrário do que ele esperava. Os resultados de seus experimentos levaram-no à busca de outras explicações para a depressão (BECK, 2014).


Beck lançou mão de inúmeras e diferentes fontes quando desenvolveu a forma de psicoterapia apresentada neste post, incluindo os primeiros filósofos, como Epiteto, e teóricos como o psicólogo Albert Ellis, o qual também teceu críticas à psicanálise.



Crítica à Terapia Cognitivo-Comportamental


Dois dos livros que apresentam uma visão crítica à Terapia Cognitivo-Comportamental são os seguintes: The Cognitive Behavioural Tsunami de Farhad Dalal e Terapia do Esquema de Young, Klosko e Weishaar.


Young Klosko e Weishaar (2008) discorrem que as pesquisas sobre resultados de tratamentos com a Terapia Cognitivo-Comportamental relatam índices de sucesso muito elevados (BARLOW, 2001 apud YOUNG, KLOSKO e WEISHAAR, 2008, p. 17).


Por exemplo, no caso de depressão, o sucesso ultrapassa os 60%, imediatamente após o tratamento; porém, o índice de recidiva é de cerca de 30%, depois de um ano (YOUNG, WEINBERGER e BECK, 2001 apud YOUNG, KLOSKO e WEISHAAR, 2008, p. 18), apontando um número significativo de pacientes que tiveram tratamento malsucedido.


Muitas vezes, pacientes com transtornos de personalidade e problemas caracterológicos não respondem totalmente a tratamentos Cognitivo-Comportamentais tradicionais (BECK, FREEMAN et al., 1990 apud YOUNG, KLOSKO e WEISHAAR, 2008, p. 18).


Um dos desafios enfrentados pela Terapia Cognitivo-Comportamental hoje em dia é o desenvolvimento de terapias para esses pacientes crônicos e difíceis de tratar (YOUNG, KLOSKO e WEISHAAR, 2008, p. 18).




Referências bibliográficas


BECK, Aaron T.; CLARK, David A. Vencendo a ansiedade e a preocupação com a terapia cognitivo-comportamental: manual do paciente. Tradução: Daniel Bueno. Porto Alegre: Artmed, 2014.


BECK, Judith S. Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática. Tradução: Sandra Mallmann. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.


RANGÉ, Bernard. Psicoterapias Cognitivo-comportamentais: Um Diálogo Com a Psiquiatria. 2ª Ed. São Paulo: Artmed, 2011.


YOUNG, Jeffrey E.; KLOSKO, Janet S.; WEISHAAR, Marjorie E. Terapia do esquema: guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Tradução Roberto Cataldo. Porto Alegre: Artmed, 2008.



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